Série Orgulho do Piauí: Por que cajuína é melhor que Coca Cola?!
Publicado por: Josely Carvalho | Data: 17/10/17

Série Orgulho do Piauí: Por que cajuína é melhor que Coca Cola?!

A partir desta terça-feira (17/10) e por toda a semana em que se comemora o Dia do Piauí (dia 19) o OitoMeia passa a divulgar uma série de reportagens intitulada ‘Orgulho do Meu Piauí’. O objetivo é trazer a você, leitor, situações, comportamentos, exemplos e personagens que fazem o piauiense se orgulhar de sua terra natal.

CAJUÍNA: MELHOR QUE REFRI
E para começar essa série de reportagens especiais onde se destaca o que dá orgulho de ser piauiense, que tal falar da, digamos, musa do estado: a saborosa cajuína. Afinal de contas, faz parte da piauiensidade expressões do tipo: “Bote uma cajuína na mesa. Melhor que qualquer refrigerante”.

É como já descreveu Caetano Veloso: “bebida fina, pura e cristalina”. Virou até música. Mas deixamos a música para depois. A cajuína hoje é Patrimônio Cultural Brasileiro, tornada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Reconhecidamente do Piauí (e aí de quem ousar achar que não é nossa) é a protagonista de qualquer mesa de bar do estado.

Pois é. Bar, restaurante ou qualquer estabelecimento que não tenha a cajuína é alvo de severas críticas no Piauí. Tem até quem deixe de frequentar. Você pode até ver uma cervejinha na mesa… ou quem sabe uns dois ou três refrigerantes… mas a cajuína é imprescindível.  E bem melhor que qualquer refrigerante. Quem garante é a nutricionista, Nívea Maria Sousa. Segundo ela, a cajuína é um suco natural, sem adição de conservantes, água, açúcar ou álcool.

Cajuína do Piauí é patrimônio brasileiro (Foto: Divulgação)

TENHA ORGULHO DA CAJUÍNA
Ao contrário do que algumas pessoas acreditam a cajuína não é uma espécie de refrigerante. Muito pelo contrário, em nada se assemelha a bebida gaseificada. A bebida não alcoólica é bastante apreciada pelo seu sabor característico, levemente ácido e refrescante.

A nutricionista Nívea Maria Sousa,consultora e instrutora do Sebrae/Piauí , explica que o produto obtido do suco de caju clarificado se destaca por ser um suco natural propriamente dito. “A cajuína é considerada muito mais que uma fonte de nutrientes. É formada por uma mistura complexa de compostos químicos, com propriedades benéficas para melhorar as defesas antioxidantes e a estabilidade do DNA. Sua composição contém vitamina C, carotenóides, compostos fenólicos (ácido anacárdico e taninos), quercetina e minerais”, afirmou ao OitoMeia.

Ela explicou que a cor característica, amarelo-âmbar, é resultado da caramelização dos açúcares do próprio suco. E na cajuína piauiense a cor é mais clara do que as produzidas em outros estados, justamente por causa do processo de produção. Aliás, foi o que fez Caetano cantar: “A cajuína cristalina”.

“Cajuína cristalina”, diz, acertadamente, trecho da música de Caetano (Foto: Reprodução)

VOCÊ SABIA QUE FAZ BEM PARA A SAÚDE?
Sim. A bebida faz bem à saúde. A cajuína destaca-se por apresentar um alto teor de vitamina C, que participa dos processos celulares, protegendo contra a mutagênese induzida por agentes oxidantes e formadores de alterações ao DNA. É importante na defesa do organismo contra infecções, fundamental na integridade das paredes dos vasos sangüíneos e é essencial para a formação das fibras colágenas existentes em praticamente todos os tecidos do corpo humano (derme, cartilagem e ossos).

Segundo as tabelas de composição química de alimentos, o suco de caju integral comercial apresenta um teor de 48,5 mg de vitamina C/100 mL do produto, e a cajuína 156 mg de vitamina C/100 mL, o que representa três vezes o valor do que é encontrado no suco de laranja (47,5 mg/100 mL), mostrando assim a importância nutricional do produto.

Em comparação com refrigerantes como a Coca-cola e o Guaraná Jesus, por exemplo, que trazem nas suas composições ácido fosfórico, um composto químico que aumenta a acidez do sangue. Além de quantidades elevadas de açúcar, excesso de corantes artificiais, conservantes e cafeína, compostos que em grandes quantidades prejudicam a saúde. A nutricionista Nívea Maria Sousa ressaltou que a cajuína ajuda na hidratação durante exercícios físicos.  “A cajuína é também uma importante fonte de hidratação, principalmente durante o exercício, já que contem eletrólitos e carboidratos, estando associada à saúde e bem-estar”, afirmou.

Caju: fruta rica em vitamina C e com uma importância nutricional espetacular (Foto: Reprodução)

QUAL A ORIGEM?! A CAJUÍNA É PIAUIENSE?
A cajuína hoje cantada pelo poeta foi, supostamente, também cantada nas práticas cotidianas de nossas populações em tempos de nossa origem étnica. A cajuína é uma bebida preparada com o suco de caju clarificado, como diz a linguagem da tecnologia agrícola atual. Trata-se de uma bebida genuinamente piauiense e símbolo cultural da cidade de Teresina, mas também com notoriedade no Ceará e no Maranhão.

Segundo dados da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), no livro “Cajuína”, quando os portugueses chegaram ao Brasil, já encontraram a cajuína, uma bebida desenvolvida artesanalmente pelos indígenas, que habitavam na região do Nordeste. A bebida era usada para comemorar as vitórias nas grandes batalhas que travavam pelo domínio dos cajueirais.

Porém foi no Piauí que a cajuína se consolidou como uma bebida tradicional do nordeste e ganhou notoriedade nacional. Turistas passaram a pedir a bebida, feita rotineiramente no estado. E a partir de então, desde o século passado, a bebida passou a ser mais consumida e apreciada como sendo legitimamente piauiense.  Atualmente o produto é feito em 33 municípios com cerca de 2.700 produtores da agricultura familiar e 120 fábricas no Piauí.

Não tem algo mais refrescante do que uma cajuína com gelo (Foto: Reprodução)

PIAUÍ PRODUZ UM MILHÃO DE CAJUÍNAS POR ANO
O Piauí, aliás, chega a produzir quase um milhão de garrafas por ano. De acordo com o presidente da Cooperativa de Produtores de Cajuína do Piauí (Cajeuspi) e da Câmara Setorial da Cajucultura, Lenildo de Lima e Silva, a expectativa para este ano é uma produção de um milhão e 300 mil garrafas. Um recorde.

Ele que está há mais de 20 anos trabalhando com produtos derivados do caju, explicou ao OitoMeiacomo funciona a produção da cajuína no Piauí e a atuação da Cajuespi.

Lenildo de Lima e Silva engenheiro agrônomo, chefe de cozinha, além de ser presidente da Cajuespi e da Câmara Setorial da Cajucultura (Foto; Jéssica Kamila/OitoMeia)

“A Cajuespi foi fundada em 2005 no Sebrae com 21 produtores. A gente produzia 100 mil garrafas de cajuína por ano, mas hoje nós temos 120 fábricas de cajuínas, 2.700 pessoas da agricultura familiar e atendemos 33 municípios do Piauí, com uma produção d um milhão de garrafas. Hoje em dia nós somos o terceiro produtor de caju do Brasil, o primeiro é o Ceará e o segundo é o Rio Grande do Norte. Mas a cada ano a produção de cajuína só aumenta”, pontuou.

Segundo Lenildo,  atualmente 80% da produção é consumida dentro de Teresina e 20% vai para outros estados. A bebida ainda não é exportada para fora do Brasil.

A produção da cajuína era e ainda tem traços de uma tradição passada entre gerações de famílias do interior do estado, principalmente na região de Picos, onde se concentra a maior produção do produto.

“Antes as pessoas faziam a cajuína em um processo totalmente artesanal, não tinha uma máquina especializada, usavam garrafas inadequadas. Hoje a gente compra garrafas específicas, quase todos têm uma prensa para separar o suco do bagaço do caju. E isso favorece a produção do produto e é importante para o crescimento da nossa cajuína”, recordou.

CAJUÍNA POSSUI SELO DE QUALIDADE NACIONAL
A bebida é fonte de renda de inúmeras famílias piauienses, por conta disso a comercialização e produção é acompanhada pelo Serviço de Apoio às Micros e Pequenas Empresas do Piauí (Sebrae). A gerente de Agronegócios do Sebrae, Geórgia Pádua, contou que a bebida local é uma referência de produção a nível nacional.

Gerente de de Agronegócios do Sebrae, Geórgia Pádua (Foto: Jéssica Kamila/OitoMeia)

“As pessoas tinham todo um ritual para preparar a cajuína, mas nós temos incentivado aos produtores para que o nosso processo seja padronizado, mesmo sendo um produto artesanal, o diferencial da cajuína do piauiense é essa qualidade, inclusive recebemos o selo de Indicação de Procedência, uma espécie de indicação geográfica que reconhece reputação, qualidades e características ligadas ao local de origem do produto”, disse ela.

Segundo Geórgia, com o selo de qualidade a bebida agrega valor ao Estado e incentiva a comercialização fora do Piauí. “O que a gente tem incentivado muito com os produtores é a questão do custo do produto. A cajuína que tem o selo de qualidade tem um valor agregado maior. No momento são três fábricas aqui que receberam o selo. Nosso intuito é que esse número aumente. A dificuldade é a questão do padrão da estrutura onde o processo de produção é realizado, afinal a maioria são pequenos e médios produtores”, explicou.

PRODUTO 100% NATURAL; TEM CURSOS NO SEBRAE-PI
Na produção de uma boa cajuína, muitos fatores são levados em consideração. O Sebrae-PI, localizado na avenida Campos Sales, Centro de Teresina, realiza cursos de capacitação dos produtores para um melhor aproveitamento do caju. Lenildo Silva explicou o passo a passo da produção da bebida no Piauí:

“A gente colhe o cajú, lava ele, tira a castanha, joga na prensa, o suco sai para um lado e o bagaço para outro. O bagaço a gente armazena em sacos plásticos e coloca nos frizzers para fazer os doces e comidas. Depois colocamos o suco nas garrafas para então ser cozido em banho-maria até que seus açúcares sejam caramelizados, tornando a bebida amarelada. A rotulagem é efetuada manualmente, aplicando a cola nos rótulos das garrafas. A cajuína é 100% natural, isso hoje é lei, se colocarem algo artificial já não é mais cajuína”, pontuou.

Mas não pense que do caju só se aproveita o pedúnculo que é a estrutura carnosa e suculenta que dar origem a cajuína. Há também a castanha, o verdadeiro fruto, do qual se derivam vários alimentos. Além do bagaço do pedúnculo onde os produtores aproveitam para fazerem doces, compotas, cristalizados, rapadura, bebidas como vinho e cachaça de caju que também está ganhando espaço no mercado. O governo estadual há cinco anos tem realizado o Festival da Cajuína para  produtores de todo o estado, para ajudar na qualidade do produto e no aproveitamento do fruto.

Processo de preparação da cajuína feita artesanalmente em Teresina (Foto: Reprodução)

VEJA O PASSO A PASSO DA PRODUÇÃO DA CAJUÍNA

  1. Coleta do caju;
  2. Seleção do caju;
  3. Lavagem do caju com “água do caju”;
  4. Retirada da castanha utilizando uma embira amarrada em um ponto de apoio firme;
  5. Prensagem do caju para retirada da água;
  6. “corte da água do caju” com rezina do próprio caju, para fins de clarificação e posteriormente uso de cola de sapateiro e atualmente gelatina;
  7. Filtragem diretamente em garrafas grandes e escuras, utilizando funis forrados com algodão. Atualmente usam-se garrafas pequenas e translúcidas, cuja intenção é mostrar o líquido translúcido;
  8. Vedação das garrafas;
  9. Acomodação das garrafas em latas grandes, forradas entre si, para fins de cozimento em banho-maria. Hoje alguns produtores usam um engradado separando as garrafas no momento do banho-maria;
  10. Resfriamento natural das garrafas após fervidas;
  11. Armazenamento;
  12. Durante muitos anos foi de consumo doméstico estritamente entre as famílias, hoje é feita distribuição na rede comercial do Estado, sendo encontrada nos grandes supermercados e também em diversos restaurantes.

Cajuína é símbolo cultural de Teresina (Foto: Reprodução Viagem em Família)

PREÇOS: MAIS BARATO QUE QUALQUER REFRI
Atualmente grande parte dos pequenos produtores de cajuína vendem uma caixa com 12 garrafas de 500 ml pelo preço de mais ou menos R$ 42,00, segundo informou a gerente do Sebrae, mas o desafio do órgão é padronizar e valorizar o preço.

De acordo com o presidente da Cajuespi, o preço de revenda de uma garrafa de 500 ml em Teresina está em tono de R$ 3,50. Bem mais barato até do que qualquer Coca Cola, Guaraná Jesus, Fanta e por aí vai. O valor final da cajuína em supermercados da capital varia entre R$ 5,00 a R$ 8,00, já nos restaurantes e bares o preço pode chegar até R$ 12,00.

“Mais do que uma fonte de renda, a cajuína é o orgulho de muitos piauienses que sabem como ninguém transmitir em uma bebida a peculiaridade e autenticidade de toda uma região que descobriu muito bem a que se destina”, pontuou Lenildo.

Torquato Neto e Caetano Veloso, em épocas de tropicalismo, velhos amigos e apreciadores de cajuína (Foto: Reprodução)

“EXISTIRMOS, A QUEM SERÁ QUE SE DESTINA…”
Ah, e a música?! Você pode estar se perguntando… como foi tão falada nesta reportagem, que abre a série de reportagens ‘Orgulho do Meu Piauí’, que tal encerrá-la com o próprio Caetano cantando?! Aperte o play e aprecie. De preferência tomando uma refrescante e deliciosa cajuína…

Para quem não sabe a história dessa música, foi composta cheia de lágrimas de saudades e gotas de caju, por Caetano, em homenagem ao amigo Torquato Neto, poeta piauiense, falecido ainda na década de 70. Caetano visitava o Piauí, quando foi para a casa de Torquato e lá ouviu o pai do piauiense contar histórias sobre o amigo.

Emocionado, ele ouviu tudo atentamente enquanto saboreava uma deliciosa cajuína na sala de estar da casa de Torquato Neto. Compôs a música que é considerada uma das mais belas da Música Popular Brasileira. Acompanhe a letra:

Cajuína – Caetano Veloso
Existirmos a que será que se destina
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina.

Fonte: Oito Meia

FOTO Destaque : BRUNO SPADA

sobre o autor

Josely Carvalho
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Jornalista e Relações Públicas, formada pela Universidade Estadual do Piauí.

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